Resenha: Perdão, Leonard Peacock (de Matthew Quick)

“Para os faroleiros – passado, presente e futuro”

O que é “Perdão, Leonard Peacock”, senão uma mensagem de esperança aos faroleiros? “Faroleiros”, é claro, assume outro significado. Um significado figurado que, durante o decorrer da narrativa, é apresentado de forma magnífica, por Matthew Quick.

Leonard Peacock – fan art – pela deviantartist NadjaGreen

“Perdão, Leonard Peacock” nos apresenta desde interessantíssimas reflexões sobre o Holocausto nazista à questionamentos sobre a própria existência de Deus, e até mesmo nos dá um gostinho de um fantástico mundo distópico – o que é um fato surpreendente quando se descobre o verdadeiro propósito disso.

“– Como saber o que você faria caso fosse forçado a cometer crimes pelo seu governo, mas ainda assim quisesse ser um bom pai? – pergunta Herr Silverman. – Os alemães eram maus ou será que estavam respondendo ao clima social e político de seu tempo?”

“[…] podemos ser humanos humanos e monstros ao mesmo tempo, […] ambas as possibilidades estão em todos nós.”

O pessimista Leonard Peacock acorda na manhã do seu décimo oitavo aniversário e tem uma única missão…

Leonard tem cabelo comprido, louro-escuro, que passa dos ombros – aparenta ser um grunge no auge do movimento, nos anos 90, (um “grunge maconheiro”, como diz sua odiosa mãe extremamente alheia). Ele é um adolescente misterioso e que esconde, no íntimo, algo forte o bastante para tomar conta de toda sua vida (“tomar” conta no sentido de “tirá-la”).

 ” –[…] Você é diferente. E eu sei como é difícil ser diferente. Mas também sei a arma poderosa que ser diferente pode vir a ser. Como o mundo precisa de tais armas[…] E pessoas únicas, como eu e você, precisam procurar outras pessoas únicas que as entendam, para que não fiquem muito solitárias[…]”

nazi p-38

Munido com a velha pistola Walther P-38 do seu avô, a pistola do Reich, ele tem uma única missão no dia em que completa dezoito anos de idade: assassinar Asher Beal, seu ex-melhor amigo, e depois tomar a própria vida.

“Será que me tornarei temporariamente poderoso se eu atirar em Asher?”

“O  mundo da notícia certamente me tornará famoso instantaneamente, e o que é a fama além de poder e popularidade?”

Mas antes do ultimato, Leo, no entanto, pretende entregar quatro presentes a quatro importantes personagens: seu vizinho e grande amigo, Walt, um velho fumante, fã dos filmes de Humphrey Bogart; Baback, um excepcional violinista descendente de iranianos; Lauren Rose, uma jovem cristã; e, por fim, o mais interessante de todos, Herr Silverman, professor que está dando aulas sobre o Holocausto no colégio.

Além da P-38, há quatro outros embrulhos, um para cada um dos meus amigos. Quero me despedir deles adequadamente. Quero dar para cada um algo que os faça se lembrar de mim, para que saibam que eu realmente me preocupo com eles e que lamento não ter sido mais do que fui – não poder ter continuado por perto –, e o que e acontecerá hoje não é culpa deles.

O autor consegue nos prender numa leitura bastante imersiva que é fluída, descontraída e rápida. Passado, presente e futuro são fatores recorrentes durante toda a narrativa. Matthew Quick criou um jogo narrativo interessante que brinca com os tempos acima citados e, durante a história, o passado começa a ser revelado, por meio de flashbacks, a cada vez em que Leonard encontra uma das quatro personagens. Sendo assim, a resposta para a pergunta que tanto nos encuca vai surgindo: “quais motivos tem Leonard Peacock para se empenhar tanto em sua intenção assassina?”

“Perdão, Leonard Peacock” consegue nos deixar a todo momento torcendo para que o desenvolver da narrativa não se conclua com resoluções simples e bobas – e até mesmo clichês. É fácil se pegar tentando adivinhar o que aconteceu entre Leonard e Asher. No entanto, Matthew Quick consegue, de fato, nos surpreender.

Outra questão curiosa, dentro da narrativa, são as chamadas “cartas do futuro”. Deparando-se com a primeira delas é comum ficar confuso, porém, seu verdadeiro propósito – revelado apenas na conclusão da história – é realmente surpreendente e forte.

Há no livro dezenas de notas de rodapé. Essas notas, porém, são essenciais para a narrativa, inseridas ali pelo próprio Leonard, como uma forma de comentar sobre o que está sendo narrado – um fato que o diferencia da estrutura de muitos outros livros. Mas, para alguns é um fator que tira pontos do livro. Entretanto, essas notas se fundem naturalmente à narrativa de forma que só acrescentam à experiência. 

“Você já pensou em todas as noites que viveu e das quais não consegue se lembrar de nada? Noites tão comuns que seu cérebro simplesmente não se dá o trabalho de registrar. Centenas, talvez milhares de noites passam sem serem registradas pela nossa memória. Isso não deixa você maluco? Imaginar que sua mente pode ter registrado só as noites erradas?”

Outro fato que algumas pessoas podem não aprovar é o final – talvez possam achar vago e com pontas soltas. O final de “Perdão, Leonard Peacock” é do tipo reflexivo que, no entanto, quando você junta todas as pistas que são dadas durante o decorrer do livro, não é difícil chegar à uma magnífica conclusão.

Narrado em primeira pessoa “Perdão, Leonard Peacock” nos deixa angustiados com a depressão do jovem Leonard. Entretanto, o livro não se resume a depressão e pessimismo, pelo contrário, vemos o mundo de uma forma bastante curiosa, pelos olhos críticos e sarcásticos de Leo, topando com assuntos diversos.

Por fim, “Perdão, Leonard Peacock” de Matthew Quick vai levar cinco invasores do espaço bem dados! Vale muitíssimo a pena ler.

Avaliação: 5 Invaders – Excelente

Caso você já leu “Perdão, Leonard Peacock” confira a Zona de Spoilers a seguir – se ainda não leu, o que está esperando?, corre lá!

A partir daqui você pode encontrar spoilers. Tome cuidado!

“Eu gosto do fato de Walt me levar para um lugar que nenhum dos meus colegas de escola sabe que existe. Admiro Bogart porque ele faz o que é certo, não importam as consequências, mesmo quando elas são negativas para ele, ao contrário de quase todo mundo em minha vida.”

De alguma forma a amizade entre Leonard e Walt é emocionante: um jovem adolescente deprimido à beira do suicídio e um senhor de idade solitário que vive envolto na fumaça de seus cigarros e que também não está muito longe da morte. Em todo caso, Walt é a figura paterna de quem Leo tanto necessitou desde o sumiço do seu pai.

A forte amizade é cheia de diálogos que são construídos com bastante referências aos filmes do velho Bogie e conseguem passar uma grande carga dramática:

Humphrey Bogart

Humphrey Bogart

“Walt sorri com muita tristeza, faz sua expressão de Bogie e diz:
– O que você já me deu além de dinheiro? Você alguma vez já me deu a sua confiança, a sua verdade? Alguma vez você tentou comprar a minha lealdade com algo além de dinheiro?
Eu reconheço a citação. É de O Falcão Maltês. Então eu a termino, dizendo:
– Com o que mais eu poderia comprá-lo?
Olhamos um para o outro com nossos chapéus de Bogart e é como se estivéssemos nos comunicando, mesmo que em silêncio absoluto.
Estou tentando fazer com que ele saiba o que estou prestes a fazer.
Estou torcendo para que ele possa me salvar, apesar de saber que não pode.”

Ainda no começo da história, Leonard sai de casa e entrega o presente de Walt. Matthew Quick apresenta todo o vínculo que as duas personagens tem uma com a outra. O presente é uma despedida. Nesse capítulo, quando Walt mostra sua preocupação com o garoto, Leonard sai ligeiro de dentro da casa com o velho desesperado às suas costas. É uma cena de partir o coração.

De fato, as referências aos filmes do Bogart que estão por quase toda a narrativa são muito boas. Algo ainda mais interessante é ver quando Leo cria uma paixão platônica pela Lauren Rose, fantasiando-a como a sedutora Lauren Bacall. 

“Eu queria beijar Lauren como a garota beijou Jhonny no carro. Eu queria ‘estacionar’ com Lauren, no mal sentido. Era isso que o meu coração estava me dizendo.”

"Mulheres bonitas tornam qualquer situação suportável."

“Mulheres bonitas tornam qualquer situação suportável.”

Desde que ficamos sabendo do mistério das mangas compridas da camisa de Herr Silverman o livro nos faz torcer para que não seja tudo uma bobagem ou um clichê – assim como os motivos de Leonard. Nos desafia a descobrir o que ele esconde ali debaixo. A ideia é surpreender. E Matthew Quick conseguiu.

Tudo começa a fazer sentido e se encaixar, até mesmo no próprio propósito da presença do Holocausto na narrativa – pessoas diferentes, únicas, que são deslocadas socialmente… (no meio de um monte de nazistas os judeus, negros, ciganos, gays… eram todos únicos). Herr Silverman se mostrou um adulto admirável desde o começo e ainda conseguiu surpreender no fim. Leonard não está só. Leonard não é o único faroleiro…

No fim, é incrível como tudo se completa. As cartas do futuro – um artifício ensinado por Herr Silverman que ajuda Leonard a suportar a depressão – e toda a história no Farol 1 é uma enorme alegoria para o que está acontecendo com ele. A beira da morte, mas, mesmo que involuntariamente gritando por ajuda. Um grito em silêncio. Um grito para que alguém o salvasse, manejando a luz de seu farol em busca de resposta.

“Eu passei a vida inteira observando-o manejar o grande feixe de luz aqui no Farol 1.
Ninguém nunca aparece.
Nós nunca vemos um barco.
Mas você acende a luz de qualquer maneira, só para o caso de isso vir a acontecer.
Mas nós a vemos – todos esses anos.
A grande luz.
O belo feixe varrendo a paisagem!
Estávamos aqui para vê-lo, e isso era o bastante.”

Leonard tem o arco narrativo completo no último capítulo – incrivelmente um carta do futuro –, ele mudou, e notamos isso. E, no fim, a certeza que fica é: Leonard Peacock morreu!

“Perdão, Leonard Peacock” nos deixa uma lição. Uma mensagem para os faroleiros: devemos sempre acender a luz do nosso farol e manejar o feixe, não podemos nos deixar desistir. Devemos continuar a arrancar as algas do nosso “amor”.

Parque LOVE, Filadélfia

FIM DA ZONA DE SPOILERS

Fim da Zona de Spoilers!

Curtiu? Então compartilhe com aquele amigo que você está tentando convencer da leitura ou, até mesmo, com quem já leu! E se você já leu “Perdão, Leonard Peacock”, não deixe de comentar!

Até mais, geek!

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Sobre Eldner Felipe

Pessoense, 18 anos, estudante (lerdo) de Jornalismo que queria ser um calango para resistir ao sol em João Pessoa, geminiano - como se isso importasse -, gosta de ler, jogar, escrever, inclusive fazer nada, e também dormir. Ênfase em fazer nada e dormir, por favor. Música? Rock, no geral, mas não é regra.
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3 respostas para Resenha: Perdão, Leonard Peacock (de Matthew Quick)

  1. Lucas Campos disse:

    Resenha extremamente bem escrita e bem feita, me deixou mais curioso acerca do livro.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Tainá G. disse:

    Também fiquei curiosa!

    Curtido por 1 pessoa

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